O anticristo (com A minúsculo, mesmo; sempre)

A indiferença pelo absoluto, caracterizada pela fase de liberalismo e relativismo moral – iniciada na Renascença, onde o homem foi colocado pela primeira vez como “a medida de todas as coisas” – que terminará em breve, dará lugar a um tempo de paixão pelo absoluto.

Só que Deus, que até então tinha sido um Parceiro Silencioso, tolerado na esfera pessoal e escamoteado do convívio social, será considerado um inimigo abertamente, dentro do paradigma estabelecido, dentro das regras do estado.

Seremos divididos em duas categorias absolutas e irreconciliáveis: o deus-homem, e o homem-de-Deus.

Muita gente vai morrer.

Que os nossos netos nasçam com uma pele muito grossa nas costas, pois serão chicoteados tal como Cristo fôra.

O Velho Testamento foi perseguido pelos nazistas, e o Novo pelos comunistas.

Agora é nossa vez de enfrentar perseguição.

Deus não permitirá a desintegração completa:

Se não houvessem as catástrofes que estão por vir, Godlessness (“impiedade”, “iniquidade”, não servem aqui; o vocábulo não possui termo imediato equivalente na língua portuguesa, e “Sem-Deus”, ou “falta de Deus” – ou “sem-Deusisse”, que eu teria que inventar como vocábulo – possuiria uma matiz muito fraca para expressar o que eu preciso, portanto escolho utilizar a palavra em inglês) iria seguir por toda a eternidade.

Assim como a morte é para um indivíduo, catástrofe é para uma má civilização; “uma geração incrédula e iníqua”.

Deus colocou um anjo com a espada flamejante na porta do Jardim, para que nossos primeiros pais não comessem da Árvore da Vida e imortalizassem sua culpa.

E assim, a morte dá fim ao pecado.

Deus permite o caos e a desintegração como lembranças de que nossos pensamentos estão errados, e nossos sonhos são profanos.

A morte da verdade moral é vingada pela ruína que se segue.

A catástrofe revela que o Mal derrota a si mesmo, sem a necessidade de qualquer agente externo.

É impossível repudiar a Deus como fizemos, sem machucarmos a nós mesmos.

A mediocridade e o acinzentado caracteriza a vida de muitos cristãos – eu incluso -, e sem sermos a luz do mundo, muito da culpa pela catástrofe é nossa.

O cristão influencia menos o mundo, do que o mundo o influencia.

O preço é a morte.

Aquele que estabelece um hospital, e é contaminado pela doença, perde o poder de curar.

Assim como o ouro misturado com uma liga deve ser lançado no fogo, assim seremos nós.

A catástrofe deve vir.

Então, definiremos nossas alianças. Afirmaremos nossa fidelidade.

Perderemos em quantidade, mas ganharemos em qualidade.

Não é pela Igreja que tememos, mas pelo mundo.

Deus não será destronado, mas o barbarismo reinará.

Nascemos na crise – na oportunidade -, sobre a cruz, na derrota. E nos tornamos elegíveis para a Misericórdia Divina.

O ladrão em Sua direita foi a Deus pela crucifixão, o de Sua esquerda foi ao inferno pelo mesmo processo.

Os anjos não tinham visto ainda a Deus.

Eram chamados a rezar incessantemente diante de um Deus invisível.

Satanás era um querubim, apenas uma categoria abaixo dos mais poderosos, os serafins, que assistem imediatamente diante do trono do Altíssimo.

São Miguel era apenas um arcanjo – categoria erroneamente considerada superior, eles que estão apenas um pouco acima da categoria mais baixa, de anjos, mas com muitos deles premiados com postos de comando pela fidelidade indestrutível -.

Satanás contemplou a si mesmo – coisa que não havia feito ainda -, quando Deus revelou aos espíritos celestiais que eles deveriam servir ao homem. Que a mulher mais humilde de toda a existência se tornaria Rainha entre eles – e por isto mesmo que em exorcismos católicos os demônios não conseguem nem sequer pronunciar o nome “Maria”, tal é o horror que possuem -.

Sem precisar pensar, sem que Deus precisasse mandar, sem mais, São Miguel atirou a sua lança, bem no meio do peito daquele que estava muito acima de si.

E então os anjos viram a Deus.

Sejamos como São Miguel.

Fala inteiramente inspirada, senão até mesmo copiada em sua maior parte, de um sermão do Venerável Reverendo Fulton Sheen, arcebispo de Nova Iorque, from the original radio program “Light Your Lamps” entitled “Signs of Our Times” broadcast on January 26, 1947

 

A última parte é completamente minha, e completamente apócrifa, apócrifa do apócrifo, porque nem no Livro de Enoque você vai encontrar essas coisas. Algumas coisas eu simplesmente SEI, somente sabendo. Se é revelação, ou viagem da minha cabeça, só Deus pode dizer.

É doutrinariamente ortodoxo, isto pode ser dito.

 

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Não é o inferno de Dante, Canto II

Coisas que a gente aprende a gostar

depois de véio:

cheiro de café, cheiro de centeio;

a acreditar em Deus, e gostar de ser brasileiro.

 

Não haveria d’o quê reclamar,

mas perdi a moça e o paladar.

 

O sono é muito bem-vindo;

saber que o sonho era falso, é lindo;

conta mais a grandeza de Deus,

do que qualquer momento meu.

 

Eu estaria melhor numa cama,

do que sentindo o cheiro da grama;

quantos mundos mais o Senhor fizesse,

eu preferia não conhecer,

 

porque a tristeza sempre existe,

até o Apocalipse,

e tantas coisas existem,

eu as esqueço assim mesmo,

pois não ficam por mais que transitem,

e eu vivo a esmo.

 

A bebida que causa a gastura,

também acalma e cura;

à alma Deus comunica,

e às vezes nela habita.

 

Os demônios com quem eu discuto

muito se fazem de surdos;

apresentaram-me, sempre, muito pouco

diante do meu discurso.

 

Coisa boa é envelhecer, muito cheio de honra;

dignidade em punho cerrado,

peito inflado como uma pomba.

 

O homem é para a grandeza,

grandeza foi feita p’ro homem;

tudo quanto é baixo e pequeno,

n’outra vida não mais te consome.

 

O homem foi feito para a Glória

de estar no Céu com o Senhor;

o pecado é um espinho e uma farpa

entre a mão e a enxada d’um lavrador.

 

Quantas coisas pode o homem,

eu vejo o que eu tenho de meu;

juntando-se tudo não vale

um sopro da boca de Deus.

 

Coisa boa é a morte,

que evitamos com sorte,

se Deus não adiasse o dia,

não haveria romaria.

 

Aquele que olha p’ro fim,

muito longa visão possui;

é certo o fim desta terra;

e o fim dos teus olhos azuis.

 

O pouco de amor me comove,

um abraço em terra pobre;

uma esmola que enche a barriga,

uma lágrima que pára uma briga.

 

O inferno é coisa boa,

ou seria se fosse Criação;

é algo sem Deus e Sua Graça,

sem face e sem irmãos.

 

Rafael Valore, 06-12-2017

 

Carta a Mim Mesmo

 

É difí… deve ser difícil chegar no futuro e descobrir que você não é o herói imaginado, você é o vilão; você é uma força de destruição.

Você não é nem de perto bonito como gostaria. Quando tinha dezessete anos o cabelo comprido e o sorriso até prometiam, mas não foi o caso; o tempo lhe judiou.

Você tem quase quarenta anos e toda vez que ouviu “eu te amo” parecia verdade, mas não era.

Confiando num instinto arrogante, você não construiu nada, se fiou numa sorte e no nada, e ficou no comodismo.

Você não tem simplesmente nada para mostrar.

Você é feio, e se esquecer de se cuidar, aparar o cabelo, a barba, de tirar os óculos para a fotografia, você envelhece oito anos agora.

Sua ex-namorada lhe olhava meio assustada depois que você aplicava todos os esforços no corpo dela, por boa meia hora, ao sair ofegante por uns bons dois minutos, depois de fumar duas carteiras por dia.

Mas agora, amigo, nem namorada você tem mais.

Você sabe que bebe. Você nem faz força para negar mais.

— Alcoólatra. – e acena “sim” com a cabeça.

E não adianta qualquer coisa, tem de ser pinga pura, da mais barata, de garrafa de plástico. Você prefere esta.

Quando a cabeça estava quase ficando boa, seu idiota, você foi atropelado. Nem adianta contar a verdade e dizer que você estava na calçada; todos sempre vão pensar que você é um bêbado.

E que dizer; sua vida está parada. A cabeça roda para chegar a todo minuto no mesmo lugar: você agora está velho, cheio de manias e idiossincrasias.

A sua ansiedade nem lhe deixa extrair muita sabedoria da experiência: você treme é de medo de ficar sem cigarro ou bebida de madrugada e não poder nem sair para comprar, com esse tornozelo moído e sem dinheiro nenhum.

Você nem sequer lembra mais de sua vida antes dela se tornar um poema de Augusto dos Anjos, e isso muito antes do acidente.

Meu amigo, com o tempo, eu tenho nutrido desprezo por você.

Você me siga no que digo e não poderá não me dar razão.

Você sonhava com filhos. Deve ser a única pessoa que eu conheço. Mas ao que parece, sinto muito! Você não está qualificado.

Você sabe perfeitamente que não aguenta a carga nem o risco de acontecer de novo depois das duas últimas; encontrar outra igual; mas o filho você não faz sozinho, não, senhor.

Você gostava da latrina da rua, por que não volta para lá?

Deleitava-se na fossa, por que ficou ruim de repente?

Acontece, meu amiguinho, que você é tão incompetente que mesmo sendo um bom moço você não consegue ser um. Há!

Chame de azar se quiser. Eu sei como você chama.

Você acha que é uma espécie de escolhido, melhor do que os outros, que Deus lhe prefere. Nem desconverse – você sabe.

Você achava que Ele ia lhe salvar a todo o momento, e olhe agora; onde anda sua arrogância?

Você e esse seu exame de consciência que nunca realmente é feito, santinho que só.

Acontece que agora você sabe que é você que está na linha, você é o próximo.

O tempo encurtou. Você nem se preocupa com a saúde, eu sei; estamos falando de morte e de salvação da alma – nem espere.

Quem sabe você não vai passar a se preocupar já, já. Com a saúde, eu digo.

20/06/2015

A mídia, a ideologia e a engenharia social produziram:

Exitem dois tipos de indivíduos – tô falando de xóvens, pessoas com a minha idade, ou até uns 40 anos -, ambos disfuncionais – nenhum ser humano é 100% funcional – , na Nova Ordem Mundial.

 
ambos infelizes

os que não conseguem conter emoções
bipolares
angustiados
ansiosos
cada gesto de amor – recebido, doado ou negado – dói como uma facada – boa e ruim
mas nunca recusa um sequer
se tudo der errado vou vender miçanga na praia
sou de humanas
diferentona

e os sociopatas
tranquilos
viventes
sociais
centrados
conhecem vinho e restaurante
ganhadores de dinheiro
planejadores e cheios de projetos

suquinho detox
academia cinco vezes por semana
não deixa a peteca cair

 
claro que são o coração e a mente
o pneumático e o psíquico
espírito e a força

 

tão indo todos pro Inferno

Fragilidade

      Nós demoramos em nos preparar.

   Um adulto na metade de sua vida hoje, ainda não está suficientemente atualizado para ser maximizadamente produtivo.

     Está sempre devendo especializações sem conta. Isto é mister para qualquer área que esbarre mesmo que de leve na área acadêmica.

   Alguém de trinta anos ainda tem uma pós-graduação e um mestrado para fazer. E outros cursos. De ensino formal. No mínimo.

   Passada essa fase, para aqueles que não tiveram paciência para a eternidade acadêmica, é claro, ilusões ou completudes de autorrealização, de mobilidade e autossuficiência. Ilusões de preparo.

    Eu ouso afirmar que nós não estamos preparados para nada. Absolutamente.

   Pessoalmente, não obtive e não desejo os títulos acadêmicos, dos quais em grande medida desenvolvi nojo, ao entender o fetiche brasileiro pela ignorância geral e titulada.

   Então, já estou despreparado para o mercado. O tempo passou, e mesmo o pouco que eu tentei, desisti na metade. Não valia a pena.

   Era muito tempo e muito recurso consumido por uma segurança muito efêmera, já então.

    Mas… ter trinta e quatro anos e uma incerteza sobre o rumo financeiro de sua vida, tendo sonhos de constituir família não é lá muito animador. É deprimente, na verdade.

   Mas estados tristes e contemplativos põem perspectiva nas coisas, e o tempo se encarrega de mudar a nossa noção de sucesso nesta idade. Espero coisas muito mais simples e singelas do que as quais eu esperava.

   E mesmo que eu tivesse me preparado, sabendo o que o futuro reservava, e por dentro de todos os desafios que eu vivi e ainda vivo, alguns difíceis mesmo de imaginar de tão extraordinários, a fragilidade humana não me ofereceria a mais leve garantia de sobrevivência. De felicidade.

     Nunca há a garantia de sucesso.

   A nossa felicidade faz fundamento em coisas móveis, e passageiras, e complicadamente mescladas e interdependentes.

   Um adulto feito, frequentemente não tem a noção de que sua felicidade pode depender da aceitação de sua amizade pela vontade frequentemente caprichosa de uma criança de quatro anos.

    Será impossível forçá-la a aceitar tal relação.

   O enteado sempre terá precedência sobre o namorado novo, é uma regra delimitada pelo tamanho do amor de mãe.

   Será necessária paciência e muito tempo e cuidado com os sentimentos da criança para que a aceitação aconteça.

   Se for um menino, travará uma batalha pela mãe.

   Eu tive esta experiência, e juro que via fogo nos olhos do meu ex-enteado por detrás do sorriso. Eu disse ex-enteado? Tsk. As crianças ficam para sempre.

   Eu errei com aquele menino de seis anos na ocasião.

   Fui muito impaciente, não soube entender e acompanhar o tempo próprio de aceitação da amizade da criança.

    Você está condenado a perder todas as disputas com você que o menino criar diante da mãe. Paciência infinita é requerida aqui.

   Mas fiz casca. Eu sei que vou acertar agora. Só que não será mérito unicamente meu.

   Se eu tratar esse menino novo com respeito, não forçar situações de intimidade – as crianças percebem falsidade com facilidade –, se eu considerá-lo um ser humano digno como qualquer outro, entender suas necessidades, merecer sua confiança, eu terei cumprido minha parte.

   Ele tem todo o direito de rejeitar-me.

   Ele não é obrigado a gostar de mim por um único segundo, mas se eu assim proceder, vou ter feito tudo ao meu alcance para criar as condições propícias para o entendimento.

   Minha felicidade com a moça nova depende do parecer de um menino de quatro anos.

   Minha vida depende de solidificar uma amizade que pode com o tempo vir a demonstrar pouquíssimos interesses em comum, com dificuldades elas mesmas inacessíveis, talvez incompreensíveis.

   Quem está livre de depender de fatores completamente fora de suas alçadas para serem felizes e completos?

   De que adiantou toda aquela preparação para a vida, e talvez você tenha dinheiro e posição social, – mas – e talvez as dificuldades pareçam maiores do que as que você possa suportar, e talvez sua felicidade dependa da capacidade de compreensão e da adaptabilidade de uma criança de quatro anos.

   Tudo depende então do coraçãozinho de uma criança, e se eu terei a sorte de conquistar o amor dela.

   Como eu sei que vai dar certo? Como posso ter tanta certeza de que vou acertar desta vez?

     É muito simples.

    Eu rezei muito tempo por isto, eu esperei muito tempo por isto.

   Eu sinto que Deus abençoou esta iniciativa, e se Ele abençoar, o que se torna ilusório então é toda essa fragilidade humana.

   Tendo a benção de Deus, a vitória em qualquer iniciativa é garantida desde o inicio.

   Sabendo isto a confusão fica por conta de simplesmente descobrir qual é realmente o plano de Deus para sua vida, e rezar pelas coisas certas, isto é, as mais passíveis de bênção.

   Entendam, há o livre-arbítrio da criança, no qual nem eu nem Deus podemos tocar, mas também não há motivo verdadeiro e plausível para que não haja amor, se houver cuidado.

   Minha felicidade depende disso e eu vou fazer o meu melhor. E Deus vai abençoar.

Não é o Inferno de Dante – Canto I

   Morri.

  Pois é. Eis que morro.

   Sem um resquício de glória, apartado da Graça.

   Aqui não há a presença de Deus.

   Ele jamais descerá, Ele jamais terá um segundo pensamento sobre nós, que estamos aqui.

   Sendo Perfeito, Suas decisões são irrevogáveis.

   Estar nos círculos mais rasos da exclusão, não é especialmente excruciante. Tem um ar, um ambiente calmante, até.

    Ser um inimigo eterno de Deus tem lá uma calma conformista.

   Não tem mais volta, não tem remédio. E sabedoria de tia diz: “O que não tem remédio, remediado está.”

   A paisagem não é das piores. Tem até mesmo sua própria beleza. É erma, solitária, angustiante.

   Escura, acinzentada, enegrecida nos entantos.

   Aqui não há Graça, não há o mais suave Amor.

   Estruturalmente, não há diferença essencial entre este e o Inferno de Dante. Politicamente, é completamente diferente.

   Os traidores estão realmente nos círculos mais profundos e internos, dos quais nenhuma visão me é permitida, nem como consolo parcial.

   Os pensadores e cientistas que morreram sem Cristo estão realmente aliviados das eternas sevícias, mas privados da Visão Beatífica e felicidade eternas assim como as crianças que morreram sem batismo. Exceto que são dotados de consciência completa, sem o que elas.

   Ninguém aqui tem muito tempo a perder com o choro vizinho; ele se perde na distância, somos embriagados da própria tristeza, não temos muita atenção a prestar, não há tempo para confraternizar, não há tempo.

   Há um uivo eterno vindo justo da pedra ao lado, mas não há tempo para virar a cabeça em sua direção, a vista e a audição turvas pelo seu próprio sofrimento.

   É possível, às vezes, levantar a cabeça e enxergar olhares compassivos vindos dos olhos dos santos do céu, mas isto é tudo que recebemos de lá.

   Nossos nervos não são mais suscetíveis à brisa quente na pele, somente à dor das pontas do tridente na carne.

   Nenhuma nota musical afina sobre nossos orifícios auriculares, mesmo que a música seja incessante.

   O frio não passa, mesmo que nossa carne esteja queimada e desfeita em combustão.

    A pouca luz machuca os olhos, e não deixa discernir os contornos com precisão alguma que seja.

   Vales tenebrosos se aprofundam, e a ameaça de queda é falsa e constante. Mentirosa e contínua.

   Os desenhos são cortantes e espetados, e estão sempre mais perto do que parecem.

     Aqui, ainda há sangue respingando. Mesmo que sangue sem vida.

   Não há gravidade agindo sobre os corpos e, no entanto nossos labirintos auriculares ainda procuram chão e estabilidade gravitacional.

    O reflexo do fluxo de vômito nunca se efetiva.

   A dor de cabeça não passa, lateja, dói demais.

   O sorriso do diabo, somente, mormente te alivia a maior parte do dia para que o impacto momentâneo seja maximizado. Na hora que sorrir.

   Aqui, os rios passam à frente a ilusão heráclitica de que fluem eternamente, sempre diferentes, sempre outro rio. Mas é sempre o mesmo.

   Convoluem – convolvem – dentro da pedra, e dentro da outra, e saem na mesma, e voltam para a outra mesma. “Quando um tetraplégico some, onde você o acha? No mesmo lugar onde o deixou.”
Aqui todos têm a mesma idade. A idade da morte. Ninguém nasceu; todos estávamos mortos; e morrendo.

   Vem o vento, em versos aliterados, semi-assassino. Quase.

   E inferniza.

   Aqui, os homens masculinos e capazes são obrigados a assistir um aleijado e demente, efeminado, rico e cheio de joias, sem o mínimo grau de moralidade, ser cortejado e servido pela moça de seus sonhos; sentado, deitado, bufando e piscando. Entediado.

   Aqui nada satisfaz; aliás, nada jamais satisfez em lugar algum. Morri, e morri com Schoppenhauer, em vez de morrer com Deus.

   Bendito seja Este, agora Surdo.

   O fogo é mais quente que na mais quente fornalha terrena, e queima sozinho, por gosto próprio.

   Ao contrário do Inferno esotérico de Dante, n’aqui o conhecimento não é especialmente renumerado, exceto pela proporção do esforço e benefício altruísta causado. Nos círculos mais amenos. Como já dito.

   Aqui, existe uma incerteza eterna, completa insegurança, sem origem nem fim, pungente, que é incerta em si mesma, de seu conteúdo. Só que bem sólida.

   Aqui, no Inferno escuro e cinza, você não é realmente nada.

   Oblivion. Minha palavra favorita na língua inglesa.

   Não existe paralelo perfeito em português. A tradução mais próxima é “inexistência”, mas o paralelo é pobre. Combine, oco, vazio, existência com inexistência, então terá.

   Aqui, você nem sequer pode deixar de ser, imortal idiota.

   Fui ao Inferno e voltei, eis o que vi. De certa forma, ainda estou lá, eis o que vejo.

   Aqui, Cristo já passou e não irá voltar. Nunca mais este solo será pisado por Deus.