Deus é Infeliz

   Recentemente conversando com uma amiga na janela inbox de chat do Facebook, identifiquei uma concepção muito arraigada e largamente aceita, que do ponto de vista teológico católico não poderia ser verdadeira, na minha modesta opinião.

   Como mãe solteira, descrente do amor eterno entre homem e mulher, ela considera o único amor verdadeiro aquele para com suas filhas. Destarte iguala amor e felicidade. As filhas são para ela vida, e certamente amor incondicional, eterno enquanto viver. Isto é certamente fonte de felicidade, não posso argumentar contra. Nem desejaria.

   Mas o amor cristão não diferencia essencialmente Eros de Caritas. Eros sem Ágape, para o cristão, não é amor. É tudo um amor só, dependendo apenas da origem e destinação do amor lançado para esta categorização. O marido que ama se ama perfeitamente, deseja cada vez mais ver o objeto de seu amor, sua esposa, perto de Deus. Ele tem esperança que ela salve sua alma.

   Amor, portanto, não se iguala à felicidade. Amar seres imperfeitos é padecer no paraíso. Antigamente as mães constrangiam seus pequenos quando cometiam travessuras, alegando que “Jesus chorava”. Já vi várias pessoas caçoando de tal noção, utilizando todo tipo de parecer.

   Bem, Deus é perfeito. Como pode entristecer-Se? Como pode irritar-Se? A troco de quê castigar seres inexpugnavelmente inimputáveis por conta de dura imperfeição?

   O homem não é, de fato, capaz de amar. Todo o bem que fazemos, é porque em algum momento permitimos que a Graça de Deus infundisse-nos certa medida de Amor.

   Deus não pode fazer o mal. Como então ameaça-nos castigos? É na realidade muito simples. No livro Êxodo, diz-se que Deus endureceu o coração do Faraó. Assim lido, Deus teria cometido uma maldade, negado ao rei do Egito a chance de arrepender-se e fatalizar a questão por via pacífica. Mas Deus jamais cometeu o mal.

   Para que nos castigue, basta a Deus que retire de nós a Graça. Seguimos assim o curso natural dos seres caídos, e em curtíssimo espaço de tempo entregamo-nos à nossa própria destruição, às guerras civis, ao curso natural de nossas coisas.

   É quando não oferecemos amor algum em troca, depois de anos de abundantes Graças, que Deus se sente traído. Nós também nos sentimos traídos, e diferentemente de Deus sentimo-nos idiotas quando alguém abusa de nosso amor e confiança.

   Deus, sendo perfeito, não pode capitular muito tempo com a imperfeição. Ele não pode misturar-se com o imperfeito, sob pena de tornar-se imperfeito Ele mesmo. O conceito de Onipotência católico torna o Deus Judaico-Cristão o Único capaz de servir de Deus aos filósofos.

   Contemplem Alá. Ele é um deus tão poderoso e transcendente, que pode fazer uma bola quadrada, ou um triângulo de quatro lados. Este não serve para ser deus dos filósofos. Este cai em falso diante do falso paradoxo da pedra que não se pode levantar.

   Quando eu lia em Isaías, quando garoto, “Oxalá descesses do teu monte, e os montes derreteriam diante da tua face” eu pensava comigo: “puxa, como a Bíblia pode ser poética”. Poética uma ova. Seria literalmente o que aconteceria. Por isso mesmo a noção de Purgatório – que sempre se confirmou através das visões dos santos –, por isso mesmo não ao imanentismo, gnosticismo e ao panteísmo. Eu sinto – não julgo; Deus o fará –, com muito pesar, que todos nós, todos nós, estaremos excluídos da Visão Beatífica; e mesmo que a maioria de nós não sejamos assassinos ou estupradores, estar nos círculos mais rasos da exclusão será castigo suficiente para lágrimas eternas, que mereceríamos. Pensar e saber que poderíamos ter sido amigos de Deus e não fomos, decerto será pena suficiente para dissipadores como nós, ainda que nos tenhamos por justos.

   Ao repensar todas estas coisas, não posso me furtar à conclusão, ao observar a falta de amor e o egoísmo dos meus, que Deus é extremamente infeliz, ao amar incondicionalmente tanta gente tão imperfeita.

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