Fragilidade

   Nós demoramos em nos preparar. Um adulto na metade de sua vida hoje, ainda não está suficientemente atualizado para ser maximizadamente produtivo. Está sempre devendo especializações sem conta. Isto é mister para qualquer área que esbarre mesmo que de leve na área acadêmica.

   Alguém de trinta anos ainda tem uma pós-graduação e um mestrado para fazer. E outros cursos. De ensino formal. No mínimo.

   Passada essa fase, para aqueles que não tiveram paciência para a eternidade acadêmica, é claro, ilusões ou completudes de autorrealização, de mobilidade e autossuficiência. Ilusões de preparo.

    Eu ouso afirmar que nós não estamos preparados para nada. Absolutamente.

   Pessoalmente, não obtive e não desejo os títulos acadêmicos, dos quais em grande medida desenvolvi nojo, ao entender o fetiche brasileiro pela ignorância geral e titulada. Então já estou despreparado para o mercado. O tempo passou, e mesmo o pouco que eu tentei, desisti na metade. Não valia a pena.

   Era muito tempo e muito recurso consumido por uma segurança muito efêmera, já então.

   Mas… Ter trinta e quatro anos e uma incerteza sobre o rumo financeiro de sua vida, tendo sonhos de constituir família não é lá muito animador. É deprimente, na verdade.

   Mas estados tristes e contemplativos põem perspectiva nas coisas, e o tempo se encarrega de mudar a nossa noção de sucesso nesta idade. Espero coisas muito mais simples e singelas do que as quais eu esperava.

   E mesmo que eu tivesse me preparado, sabendo o que o futuro reservava, e por dentro de todos os desafios que eu vivi e ainda vivo, alguns difíceis mesmo de imaginar de tão extraordinários, a fragilidade humana não me ofereceria a mais leve garantia de sobrevivência. De felicidade.

   Nunca há a garantia de sucesso. A nossa felicidade faz fundamento em coisas móveis, e passageiras, e complicadamente mescladas e interdependentes.

   Um adulto feito, frequentemente não tem a noção de que sua felicidade pode depender da aceitação de sua amizade pela vontade frequentemente caprichosa de uma criança de quatro anos. Será impossível força-la a aceitar tal relação.

   O enteado sempre terá precedência sobre o namorado novo, é uma regra delimitada pelo tamanho do amor de mãe. Será necessária paciência e muito tempo e cuidado com os sentimentos da criança para que a aceitação aconteça. Se for um menino, travará uma batalha pela mãe. Eu tive esta experiência, e juro que via fogo nos olhos do meu ex-enteado por detrás do sorriso. Eu disse ex-enteado? Tsk. As crianças ficam para sempre.

   Eu errei com aquele menino de seis anos na ocasião. Fui muito impaciente, não soube entender e acompanhar o tempo próprio de aceitação da amizade da criança. Você está condenado a perder todas as disputas com você que o menino criar diante da mãe. Paciência infinita é requerida aqui.

   Mas fiz casca. Eu sei que vou acertar agora. Só que não será mérito unicamente meu.

   Se eu tratar esse menino novo com respeito, não forçar situações de intimidade – as crianças percebem falsidade com facilidade –, se eu considera-lo um ser humano digno como qualquer outro, entender suas necessidades, merecer sua confiança, eu terei cumprido minha parte.

   Ele tem todo o direito de rejeitar-me. Ele não é obrigado a gostar de mim por um único segundo, mas se eu assim proceder, vou ter feito tudo ao meu alcance para criar as condições propícias para o entendimento. Minha felicidade com a moça nova depende do parecer de um menino de quatro anos. Minha vida depende de solidificar uma amizade que pode com o tempo vir a demonstrar pouquíssimos interesses em comum, com dificuldades elas mesmas inacessíveis, talvez incompreensíveis. Quem está livre de depender de fatores completamente fora de suas alçadas para serem felizes e completos? De que adiantou toda aquela preparação para a vida, e talvez você tenha dinheiro e posição social, – mas – e talvez as dificuldades pareçam maiores do que as que você possa suportar, e talvez sua felicidade dependa da capacidade de compreensão e da adaptabilidade de uma criança de quatro anos.

   Tudo depende então do coraçãozinho de uma criança, e se eu terei a sorte de conquistar o amor dela.

   Como eu sei que vai dar certo? Como posso ter tanta certeza de que vou acertar desta vez?

   É muito simples. Eu rezei muito tempo por isto, eu esperei muito tempo por isto. Eu sinto que Deus abençoou esta iniciativa, e se Ele abençoar, o que se torna ilusório então é toda essa fragilidade humana. Tendo a benção de Deus, a vitória em qualquer iniciativa é garantida desde o inicio. Sabendo isto a confusão fica por conta de simplesmente descobrir qual é realmente o plano de Deus para sua vida, e rezar pelas coisas certas, isto é, mais passíveis de bênção.

   Entendam, há o livre-arbítrio da criança, no qual nem eu nem Deus podemos tocar, mas também não há motivo verdadeiro e plausível para que não haja amor, se houver cuidado.

   Minha felicidade depende disso e eu vou fazer o meu melhor. E Deus vai abençoar.

Não é o Inferno de Dante – Canto I

   Morri. Pois é. Eis que morro. Sem um resquício de glória, apartado da Graça. Aqui não há a presença de Deus. Ele jamais descerá, Ele jamais terá um segundo pensamento sobre nós, que estamos aqui. Sendo Perfeito, Suas decisões são irrevogáveis.

   Estar nos círculos mais rasos da exclusão, não é especialmente excruciante. Tem um ar, um ambiente calmante, até. Ser um inimigo eterno de Deus tem lá uma calma conformista. Não tem mais volta, não tem remédio. E sabedoria de tia diz: “O que não tem remédio, remediado está.”

   A paisagem não é das piores. Tem até mesmo sua própria beleza. É erma, solitária, angustiante.

   Escura, acinzentada, enegrecida nos entantos.

   Aqui não há Graça, não há o mais suave Amor.

   Estruturalmente, não há diferença essencial entre este e o Inferno de Dante. Politicamente, é completamente diferente.

   Os traidores estão realmente nos círculos mais profundos e internos, dos quais nenhuma visão me é permitida, nem como consolo parcial. Os pensadores e cientistas que morreram sem Cristo estão realmente aliviados das eternas sevícias, mas privados da Visão Beatífica e felicidade eternas assim como as crianças que morreram sem batismo. Exceto que são dotados de consciência completa, sem o que elas.

   Ninguém aqui tem muito tempo a perder com o choro vizinho; ele se perde na distância, somos embriagados da própria tristeza, não temos muita atenção a prestar, não há tempo para confraternizar, não há tempo.

   Há um uivo eterno vindo justo da pedra ao lado, mas não há tempo para virar a cabeça em sua direção, a vista e a audição turvas pelo seu próprio sofrimento.

   É possível, às vezes, levantar a cabeça e enxergar olhares compassivos vindos dos olhos dos santos do céu, mas isto é tudo que recebemos de lá.

   Nossos nervos não são mais suscetíveis à brisa quente na pele, somente à dor das pontas do tridente na carne.

   Nenhuma nota musical afina sobre nossos orifícios auriculares, mesmo que a música seja incessante.

   O frio não passa, mesmo que nossa carne esteja queimada e desfeita em combustão. A pouca luz machuca os olhos, e não deixa discernir os contornos com precisão alguma que seja. Vales tenebrosos se aprofundam, e a ameaça de queda é falsa e constante. Mentirosa e contínua.

   Os desenhos são cortantes e espetados, e estão sempre mais perto do que parecem.
Aqui, ainda há sangue respingando. Mesmo que sangue sem vida.

   Não há gravidade agindo sobre os corpos e, no entanto nossos labirintos auriculares ainda procuram chão e estabilidade gravitacional. O reflexo do fluxo de vômito nunca se efetiva.

   A dor de cabeça não passa, lateja, dói demais.

   O sorriso do diabo, somente, mormente te alivia a maior parte do dia para que o impacto momentâneo seja maximizado. Na hora que sorrir.

   Aqui, os rios passam à frente a ilusão heráclitica de que fluem eternamente, sempre diferentes, sempre outro rio. Mas é sempre o mesmo.

   Convoluem – convolvem – dentro da pedra, e dentro da outra, e saem na mesma, e voltam para a outra mesma. “Quando um tetraplégico some, onde você o acha? No mesmo lugar onde o deixou.”
Aqui todos têm a mesma idade. A idade da morte. Ninguém nasceu; todos estávamos mortos; e morrendo.

   Vem o vento, em versos aliterados, semi-assassino. Quase.

   E inferniza.

   Aqui, os homens masculinos e capazes são obrigados a assistir um aleijado e demente, efeminado, rico e cheio de joias, sem o mínimo grau de moralidade, ser cortejado e servido pela moça de seus sonhos; sentado, deitado, bufando e piscando. Entediado.

Aqui nada satisfaz; aliás, nada jamais satisfez em lugar algum. Morri, e morri com Schoppenhauer, em vez de morrer com Deus.

   Bendito seja Este, agora Surdo.

   O fogo é mais quente que na mais quente fornalha terrena, e queima sozinho, por gosto próprio.

   Ao contrário do Inferno esotérico de Dante, n’aqui o conhecimento não é especialmente renumerado, exceto pela proporção do esforço e benefício altruísta causado. Nos círculos mais amenos. Como já dito.

   Aqui, existe uma incerteza eterna, completa insegurança, sem origem nem fim, pungente, que é incerta em si mesma, de seu conteúdo. Só que bem sólida.

   Aqui, no Inferno escuro e cinza, você não é realmente nada.

   Oblivion. Minha palavra favorita na língua inglesa. Não existe paralelo perfeito em português. A tradução mais próxima é “inexistência”, mas o paralelo é pobre. Combine, oco, vazio, existência com inexistência, então terá.

   Aqui, você nem sequer pode deixar de ser, imortal idiota.

   Fui ao Inferno e voltei, eis o que vi. De certa forma, ainda estou lá, eis o que vejo.

   Aqui, Cristo já passou e não irá voltar. Nunca mais este solo será pisado por Deus.