Não é o Inferno de Dante – Canto I

   Morri. Pois é. Eis que morro. Sem um resquício de glória, apartado da Graça. Aqui não há a presença de Deus. Ele jamais descerá, Ele jamais terá um segundo pensamento sobre nós, que estamos aqui. Sendo Perfeito, Suas decisões são irrevogáveis.

   Estar nos círculos mais rasos da exclusão, não é especialmente excruciante. Tem um ar, um ambiente calmante, até. Ser um inimigo eterno de Deus tem lá uma calma conformista. Não tem mais volta, não tem remédio. E sabedoria de tia diz: “O que não tem remédio, remediado está.”

   A paisagem não é das piores. Tem até mesmo sua própria beleza. É erma, solitária, angustiante.

   Escura, acinzentada, enegrecida nos entantos.

   Aqui não há Graça, não há o mais suave Amor.

   Estruturalmente, não há diferença essencial entre este e o Inferno de Dante. Politicamente, é completamente diferente.

   Os traidores estão realmente nos círculos mais profundos e internos, dos quais nenhuma visão me é permitida, nem como consolo parcial. Os pensadores e cientistas que morreram sem Cristo estão realmente aliviados das eternas sevícias, mas privados da Visão Beatífica e felicidade eternas assim como as crianças que morreram sem batismo. Exceto que são dotados de consciência completa, sem o que elas.

   Ninguém aqui tem muito tempo a perder com o choro vizinho; ele se perde na distância, somos embriagados da própria tristeza, não temos muita atenção a prestar, não há tempo para confraternizar, não há tempo.

   Há um uivo eterno vindo justo da pedra ao lado, mas não há tempo para virar a cabeça em sua direção, a vista e a audição turvas pelo seu próprio sofrimento.

   É possível, às vezes, levantar a cabeça e enxergar olhares compassivos vindos dos olhos dos santos do céu, mas isto é tudo que recebemos de lá.

   Nossos nervos não são mais suscetíveis à brisa quente na pele, somente à dor das pontas do tridente na carne.

   Nenhuma nota musical afina sobre nossos orifícios auriculares, mesmo que a música seja incessante.

   O frio não passa, mesmo que nossa carne esteja queimada e desfeita em combustão. A pouca luz machuca os olhos, e não deixa discernir os contornos com precisão alguma que seja. Vales tenebrosos se aprofundam, e a ameaça de queda é falsa e constante. Mentirosa e contínua.

   Os desenhos são cortantes e espetados, e estão sempre mais perto do que parecem.
Aqui, ainda há sangue respingando. Mesmo que sangue sem vida.

   Não há gravidade agindo sobre os corpos e, no entanto nossos labirintos auriculares ainda procuram chão e estabilidade gravitacional. O reflexo do fluxo de vômito nunca se efetiva.

   A dor de cabeça não passa, lateja, dói demais.

   O sorriso do diabo, somente, mormente te alivia a maior parte do dia para que o impacto momentâneo seja maximizado. Na hora que sorrir.

   Aqui, os rios passam à frente a ilusão heráclitica de que fluem eternamente, sempre diferentes, sempre outro rio. Mas é sempre o mesmo.

   Convoluem – convolvem – dentro da pedra, e dentro da outra, e saem na mesma, e voltam para a outra mesma. “Quando um tetraplégico some, onde você o acha? No mesmo lugar onde o deixou.”
Aqui todos têm a mesma idade. A idade da morte. Ninguém nasceu; todos estávamos mortos; e morrendo.

   Vem o vento, em versos aliterados, semi-assassino. Quase.

   E inferniza.

   Aqui, os homens masculinos e capazes são obrigados a assistir um aleijado e demente, efeminado, rico e cheio de joias, sem o mínimo grau de moralidade, ser cortejado e servido pela moça de seus sonhos; sentado, deitado, bufando e piscando. Entediado.

Aqui nada satisfaz; aliás, nada jamais satisfez em lugar algum. Morri, e morri com Schoppenhauer, em vez de morrer com Deus.

   Bendito seja Este, agora Surdo.

   O fogo é mais quente que na mais quente fornalha terrena, e queima sozinho, por gosto próprio.

   Ao contrário do Inferno esotérico de Dante, n’aqui o conhecimento não é especialmente renumerado, exceto pela proporção do esforço e benefício altruísta causado. Nos círculos mais amenos. Como já dito.

   Aqui, existe uma incerteza eterna, completa insegurança, sem origem nem fim, pungente, que é incerta em si mesma, de seu conteúdo. Só que bem sólida.

   Aqui, no Inferno escuro e cinza, você não é realmente nada.

   Oblivion. Minha palavra favorita na língua inglesa. Não existe paralelo perfeito em português. A tradução mais próxima é “inexistência”, mas o paralelo é pobre. Combine, oco, vazio, existência com inexistência, então terá.

   Aqui, você nem sequer pode deixar de ser, imortal idiota.

   Fui ao Inferno e voltei, eis o que vi. De certa forma, ainda estou lá, eis o que vejo.

   Aqui, Cristo já passou e não irá voltar. Nunca mais este solo será pisado por Deus.

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