Lembrete

n esquecer:

 

cérebro – aki tah uma ferramenta
coração – aki tah o centro da porra toda

 

 

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Carta a Mim Mesmo

 

É difí… deve ser difícil chegar no futuro e descobrir que você não é o herói imaginado, você é o vilão; você é uma força de destruição.

Você não é nem de perto bonito como gostaria. Quando tinha dezessete anos o cabelo comprido e o sorriso até prometiam, mas não foi o caso; o tempo lhe judiou.

Você tem quase quarenta anos e toda vez que ouviu “eu te amo” parecia verdade, mas não era.

Confiando num instinto arrogante, você não construiu nada, se fiou numa sorte e no nada, e ficou no comodismo.

Você não tem simplesmente nada para mostrar.

Você é feio, e se esquecer de se cuidar, aparar o cabelo, a barba, de tirar os óculos para a fotografia, você envelhece oito anos agora.

Sua ex-namorada lhe olhava meio assustada depois que você aplicava todos os esforços no corpo dela, por boa meia hora, ao sair ofegante por uns bons dois minutos, depois de fumar duas carteiras por dia.

Mas agora, amigo, nem namorada você tem mais.

Você sabe que bebe. Você nem faz força para negar mais.

— Alcoólatra. – e acena “sim” com a cabeça.

E não adianta qualquer coisa, tem de ser pinga pura, da mais barata, de garrafa de plástico. Você prefere esta.

Quando a cabeça estava quase ficando boa, seu idiota, você foi atropelado. Nem adianta contar a verdade e dizer que você estava na calçada; todos sempre vão pensar que você é um bêbado.

E que dizer, sua vida está parada. A cabeça roda para chegar a todo minuto no mesmo lugar: você agora está velho, cheio de manias e idiossincrasias.

A sua ansiedade nem lhe deixa extrair muita sabedoria da experiência: você treme é de medo de ficar sem cigarro ou bebida de madrugada e não poder nem sair para comprar, com esse tornozelo moído e sem dinheiro nenhum.

Você nem sequer lembra mais de sua vida antes dela se tornar um poema de Augusto dos Anjos, e isso muito antes do acidente.

Meu amigo, com o tempo, eu tenho nutrido desprezo por você.

Você me siga no que digo e não poderá não me dar razão.

Você sonhava com filhos. Deve ser a única pessoa que eu conheço. Mas ao que parece, sinto muito! Você não está qualificado.

Você sabe perfeitamente que não aguenta a carga nem o risco de acontecer de novo depois das duas últimas; encontrar outra igual; mas o filho você não faz sozinho, não, senhor.

Você gostava da latrina da rua, por que não volta para lá?

Deleitava-se na fossa, por que ficou ruim de repente?

Acontece, meu amiguinho, que você é tão incompetente que mesmo sendo um bom moço você não consegue ser um. Há!

Chame de azar se quiser. Eu sei como você chama.

Você acha que é uma espécie de escolhido, melhor do que os outros, que Deus lhe prefere. Nem desconverse – você sabe.

Você achava que Ele ia lhe salvar a todo o momento, e olhe agora; onde anda sua arrogância?

Você e esse seu exame de consciência que nunca realmente é feito, santinho que só.

Acontece que agora você sabe que é você que está na linha, você é o próximo. O tempo encurtou. Você nem se preocupa com a saúde, eu sei; estamos falando de morte e de salvação da alma – nem espere.

Quem sabe você não vai passar a se preocupar já, já. Com a saúde, eu digo.

20/06/2015

A mídia, a ideologia e a engenharia social produziram:

Exitem dois tipos de indivíduos – tô falando de xóvens, pessoas com a minha idade, ou até uns 40 anos -, ambos disfuncionais – nenhum ser humano é 100% funcional – , na Nova Ordem Mundial.

 
ambos infelizes

os que não conseguem conter emoções
bipolares
angustiados
ansiosos
cada gesto de amor – recebido, doado ou negado – dói como uma facada – boa e ruim
mas nunca recusa um sequer
se tudo der errado vou vender miçanga na praia
sou de humanas
diferentona

e os sociopatas
tranquilos
viventes
sociais
centrados
conhecem vinho e restaurante
ganhadores de dinheiro
planejadores e cheios de projetos

suquinho detox
academia cinco vezes por semana
não deixa a peteca cair

 
claro que são o coração e a mente
o pneumático e o psíquico
espírito e a força

 

tão indo todos pro Inferno

Fragilidade

   Nós demoramos em nos preparar. Um adulto na metade de sua vida hoje, ainda não está suficientemente atualizado para ser maximizadamente produtivo. Está sempre devendo especializações sem conta. Isto é mister para qualquer área que esbarre mesmo que de leve na área acadêmica.

   Alguém de trinta anos ainda tem uma pós-graduação e um mestrado para fazer. E outros cursos. De ensino formal. No mínimo.

   Passada essa fase, para aqueles que não tiveram paciência para a eternidade acadêmica, é claro, ilusões ou completudes de autorrealização, de mobilidade e autossuficiência. Ilusões de preparo.

    Eu ouso afirmar que nós não estamos preparados para nada. Absolutamente.

   Pessoalmente, não obtive e não desejo os títulos acadêmicos, dos quais em grande medida desenvolvi nojo, ao entender o fetiche brasileiro pela ignorância geral e titulada. Então já estou despreparado para o mercado. O tempo passou, e mesmo o pouco que eu tentei, desisti na metade. Não valia a pena.

   Era muito tempo e muito recurso consumido por uma segurança muito efêmera, já então.

   Mas… Ter trinta e quatro anos e uma incerteza sobre o rumo financeiro de sua vida, tendo sonhos de constituir família não é lá muito animador. É deprimente, na verdade.

   Mas estados tristes e contemplativos põem perspectiva nas coisas, e o tempo se encarrega de mudar a nossa noção de sucesso nesta idade. Espero coisas muito mais simples e singelas do que as quais eu esperava.

   E mesmo que eu tivesse me preparado, sabendo o que o futuro reservava, e por dentro de todos os desafios que eu vivi e ainda vivo, alguns difíceis mesmo de imaginar de tão extraordinários, a fragilidade humana não me ofereceria a mais leve garantia de sobrevivência. De felicidade.

   Nunca há a garantia de sucesso. A nossa felicidade faz fundamento em coisas móveis, e passageiras, e complicadamente mescladas e interdependentes.

   Um adulto feito, frequentemente não tem a noção de que sua felicidade pode depender da aceitação de sua amizade pela vontade frequentemente caprichosa de uma criança de quatro anos. Será impossível força-la a aceitar tal relação.

   O enteado sempre terá precedência sobre o namorado novo, é uma regra delimitada pelo tamanho do amor de mãe. Será necessária paciência e muito tempo e cuidado com os sentimentos da criança para que a aceitação aconteça. Se for um menino, travará uma batalha pela mãe. Eu tive esta experiência, e juro que via fogo nos olhos do meu ex-enteado por detrás do sorriso. Eu disse ex-enteado? Tsk. As crianças ficam para sempre.

   Eu errei com aquele menino de seis anos na ocasião. Fui muito impaciente, não soube entender e acompanhar o tempo próprio de aceitação da amizade da criança. Você está condenado a perder todas as disputas com você que o menino criar diante da mãe. Paciência infinita é requerida aqui.

   Mas fiz casca. Eu sei que vou acertar agora. Só que não será mérito unicamente meu.

   Se eu tratar esse menino novo com respeito, não forçar situações de intimidade – as crianças percebem falsidade com facilidade –, se eu considera-lo um ser humano digno como qualquer outro, entender suas necessidades, merecer sua confiança, eu terei cumprido minha parte.

   Ele tem todo o direito de rejeitar-me. Ele não é obrigado a gostar de mim por um único segundo, mas se eu assim proceder, vou ter feito tudo ao meu alcance para criar as condições propícias para o entendimento. Minha felicidade com a moça nova depende do parecer de um menino de quatro anos. Minha vida depende de solidificar uma amizade que pode com o tempo vir a demonstrar pouquíssimos interesses em comum, com dificuldades elas mesmas inacessíveis, talvez incompreensíveis. Quem está livre de depender de fatores completamente fora de suas alçadas para serem felizes e completos? De que adiantou toda aquela preparação para a vida, e talvez você tenha dinheiro e posição social, – mas – e talvez as dificuldades pareçam maiores do que as que você possa suportar, e talvez sua felicidade dependa da capacidade de compreensão e da adaptabilidade de uma criança de quatro anos.

   Tudo depende então do coraçãozinho de uma criança, e se eu terei a sorte de conquistar o amor dela.

   Como eu sei que vai dar certo? Como posso ter tanta certeza de que vou acertar desta vez?

   É muito simples. Eu rezei muito tempo por isto, eu esperei muito tempo por isto. Eu sinto que Deus abençoou esta iniciativa, e se Ele abençoar, o que se torna ilusório então é toda essa fragilidade humana. Tendo a benção de Deus, a vitória em qualquer iniciativa é garantida desde o inicio. Sabendo isto a confusão fica por conta de simplesmente descobrir qual é realmente o plano de Deus para sua vida, e rezar pelas coisas certas, isto é, mais passíveis de bênção.

   Entendam, há o livre-arbítrio da criança, no qual nem eu nem Deus podemos tocar, mas também não há motivo verdadeiro e plausível para que não haja amor, se houver cuidado.

   Minha felicidade depende disso e eu vou fazer o meu melhor. E Deus vai abençoar.

Não é o Inferno de Dante – Canto I

   Morri. Pois é. Eis que morro. Sem um resquício de glória, apartado da Graça. Aqui não há a presença de Deus. Ele jamais descerá, Ele jamais terá um segundo pensamento sobre nós, que estamos aqui. Sendo Perfeito, Suas decisões são irrevogáveis.

   Estar nos círculos mais rasos da exclusão, não é especialmente excruciante. Tem um ar, um ambiente calmante, até. Ser um inimigo eterno de Deus tem lá uma calma conformista. Não tem mais volta, não tem remédio. E sabedoria de tia diz: “O que não tem remédio, remediado está.”

   A paisagem não é das piores. Tem até mesmo sua própria beleza. É erma, solitária, angustiante.

   Escura, acinzentada, enegrecida nos entantos.

   Aqui não há Graça, não há o mais suave Amor.

   Estruturalmente, não há diferença essencial entre este e o Inferno de Dante. Politicamente, é completamente diferente.

   Os traidores estão realmente nos círculos mais profundos e internos, dos quais nenhuma visão me é permitida, nem como consolo parcial. Os pensadores e cientistas que morreram sem Cristo estão realmente aliviados das eternas sevícias, mas privados da Visão Beatífica e felicidade eternas assim como as crianças que morreram sem batismo. Exceto que são dotados de consciência completa, sem o que elas.

   Ninguém aqui tem muito tempo a perder com o choro vizinho; ele se perde na distância, somos embriagados da própria tristeza, não temos muita atenção a prestar, não há tempo para confraternizar, não há tempo.

   Há um uivo eterno vindo justo da pedra ao lado, mas não há tempo para virar a cabeça em sua direção, a vista e a audição turvas pelo seu próprio sofrimento.

   É possível, às vezes, levantar a cabeça e enxergar olhares compassivos vindos dos olhos dos santos do céu, mas isto é tudo que recebemos de lá.

   Nossos nervos não são mais suscetíveis à brisa quente na pele, somente à dor das pontas do tridente na carne.

   Nenhuma nota musical afina sobre nossos orifícios auriculares, mesmo que a música seja incessante.

   O frio não passa, mesmo que nossa carne esteja queimada e desfeita em combustão. A pouca luz machuca os olhos, e não deixa discernir os contornos com precisão alguma que seja. Vales tenebrosos se aprofundam, e a ameaça de queda é falsa e constante. Mentirosa e contínua.

   Os desenhos são cortantes e espetados, e estão sempre mais perto do que parecem.
Aqui, ainda há sangue respingando. Mesmo que sangue sem vida.

   Não há gravidade agindo sobre os corpos e, no entanto nossos labirintos auriculares ainda procuram chão e estabilidade gravitacional. O reflexo do fluxo de vômito nunca se efetiva.

   A dor de cabeça não passa, lateja, dói demais.

   O sorriso do diabo, somente, mormente te alivia a maior parte do dia para que o impacto momentâneo seja maximizado. Na hora que sorrir.

   Aqui, os rios passam à frente a ilusão heráclitica de que fluem eternamente, sempre diferentes, sempre outro rio. Mas é sempre o mesmo.

   Convoluem – convolvem – dentro da pedra, e dentro da outra, e saem na mesma, e voltam para a outra mesma. “Quando um tetraplégico some, onde você o acha? No mesmo lugar onde o deixou.”
Aqui todos têm a mesma idade. A idade da morte. Ninguém nasceu; todos estávamos mortos; e morrendo.

   Vem o vento, em versos aliterados, semi-assassino. Quase.

   E inferniza.

   Aqui, os homens masculinos e capazes são obrigados a assistir um aleijado e demente, efeminado, rico e cheio de joias, sem o mínimo grau de moralidade, ser cortejado e servido pela moça de seus sonhos; sentado, deitado, bufando e piscando. Entediado.

Aqui nada satisfaz; aliás, nada jamais satisfez em lugar algum. Morri, e morri com Schoppenhauer, em vez de morrer com Deus.

   Bendito seja Este, agora Surdo.

   O fogo é mais quente que na mais quente fornalha terrena, e queima sozinho, por gosto próprio.

   Ao contrário do Inferno esotérico de Dante, n’aqui o conhecimento não é especialmente renumerado, exceto pela proporção do esforço e benefício altruísta causado. Nos círculos mais amenos. Como já dito.

   Aqui, existe uma incerteza eterna, completa insegurança, sem origem nem fim, pungente, que é incerta em si mesma, de seu conteúdo. Só que bem sólida.

   Aqui, no Inferno escuro e cinza, você não é realmente nada.

   Oblivion. Minha palavra favorita na língua inglesa. Não existe paralelo perfeito em português. A tradução mais próxima é “inexistência”, mas o paralelo é pobre. Combine, oco, vazio, existência com inexistência, então terá.

   Aqui, você nem sequer pode deixar de ser, imortal idiota.

   Fui ao Inferno e voltei, eis o que vi. De certa forma, ainda estou lá, eis o que vejo.

   Aqui, Cristo já passou e não irá voltar. Nunca mais este solo será pisado por Deus.

Se meu Deus não existisse

Se meu Deus não existisse
Preferia simplesmente não viver
Invocaria imediatamente o diabo
E satisfaria todos os meus prazeres e vontades

Se meu Deus não existisse
Jamais me obrigaria a te amar, sob nenhum pretexto
Eu não teria parte com os homens
E não precisaria esconder o meu desprezo

A diferença entre vocês e os que matam crianças
É a necessidade e a oportunidade, ou ainda – a conveniência
Se meu Deus não existisse
Desfar-lhes-ia em tiras

Se não devesse a meu Deus
Cuspir-lhes-ia em rosto a cada recolhimento de catarro na boca
Arrastar-me-ia até o centro da cidade
E como tantos outros me jogava do alto do Edifício Asa

Se meu Deus não existisse
O ser humano, que é feito de papel
Nunca choraria
Não de alegria
Nunca se ajoelharia
E uma folha de papel nunca pára de pé

Se meu Deus não existisse
Não sonharia noite e dia em segurar uma criança
Cuidar dela, sacrificar-me por ela
Olhar por momentos infinitos em seus olhos
E desfazer-me para que ela exista, e eu não

Entupir-me-ia de cocaína até o limite dos meus recursos
Destruiria todos os móveis da casa
E me autoflagelava para sentir algo que fosse

Eu fiz cortes profundos de faca em minha perna
E meses passados, ainda vejo as marcas
Fiz na perna porque podia esconder
Depois tive medo que me visses nu, e torci para que sarassem logo

Eu queria nunca ter existido
Mas depois de chorar por anos
De ser chamado de prostituta
Porque me entreguei às necessidades animais
Sabe,
Eu rezo noite e dia
Sabe a primeira coisa que faço quando acordo?
Eu peço em nome de todos os santos do céu
Para que te cases comigo
Eu queria segurar uma criança, e queria que fosse tua criança

Se meu Deus não existisse
Esganava-te até estares roxa

Como podes ser leviana e superficial como todos os outros
Quando és diferente e eu sei?

Eu sonho acordado
Eu tenho um bebê nas minhas mãos, em meus braços
Nada importa, os assassinos não existem
Ele me olha, e sorri
Eu nunca terei este bebê
Não posso trazê-lo sozinho, entenda, preciso de você
E você está ocupada demais

Cheio de amor este mundo, creia
De crianças e fuzis
E riem, riem
E o que mais me envergonha é que riem mais de minhas lágrimas, mais disto
Que eu não me preocupo mais em conter
E desejando a inexistência
Respiro
Respiro de novo
Seco o rosto
Porque meu Deus existe
Ele existe

Logo morrerei
Se eu achar graça diante de Teus olhos

Se meu Deus não existisse
Nada importava
Pois muito pouco importa agora
E ter a reputação de um mal-crescido faz-me jus
E ter a mãos vazias sem nada à mostra faz-me jus
Ter os dentes todos podres, certamente faz-me jus
Eu construí este estado de coisas, sem ter a quem culpar
E logo me despeço
Pois existe um limite humano para a tristeza e a solidão

Se meu Deus não existisse
Que vantagem me tiraria em não lhe tirar vantagem, na oportunidade diária
Quiçá a moral do ateu, desconheça a Lei Natural

Pro inferno contigo, diria eu
Que se afogue, que se perca

Deus decidiu que havia a dor
Ele fez a luz, e achou que era boa
Como então eu lanço fora a tristeza, se me põe como obrigação?
Não conhecesses meu coração, não estás me ouvindo?

Se meu Deus não existe, não há razão para nada
Eu podia lhe esfaquear agora mesmo
Não haveria represália, pois sem motivo os crimes não têm solução

Porque razão ficaria contigo até tarde da noite em horas de debate sobre a origem da moral?
Se não visse nos olhos da criança o vestígio da Criação

Tudo em bom tempo
Minha estação de lágrimas é longa, só isso
E nas garras da Morte, Liberdade

Sinais em toda parte
Um sorriso conserta um dia
E se um juiz humano
É capaz de aplicar o conceito de circunstâncias mitigantes
Que se dirá do Papai do Céu?

Você me vê acenando adeus?
Você acena de volta?
Eu podia congelar o teu sorriso num momento eterno
E viver aquilo, só aquilo

Eu vou sair para caminhar um pouco agora, é necessário
Outros sorrisos me farão esquecer momentaneamente você
É necessário
Depois em angústia só farei lembrar-me de tua leveza
Tudo em bom tempo

E depois, vendo filmes, chorarei quando o pai ausente finalmente chega e é recebido com um abraço apertado, sua esposa e seu bebê

Se meu Deus não existisse
Haveria uma certa facilidade em entregar-me à lascívia
Haveria muita facilidade
Mas se eu beijar outra boca carnuda que me sorri hoje à noite
Com que rosto enfrento a Ele na oração que farei por ti ao acordar?

A troco de quê te perdoaria o desrespeito
Enfrentaria a humilhação

Pra quê acordar mais cedo?
Ou comer o suficiente para ter saúde

Se meu Deus não existir
Certos estão os que põem as crianças por escudo

Os que vivem mais um dia

15/08/14

Contista

   Meu dia começa na melhor das hipóteses às duas da tarde.

   Ultimamente não tenho estado bem, então pode começar às quatro, ou se eu acordar mais cedo que às duas e não conseguir dormir novamente, forço-me a dormir mais um pouco, até no máximo umas seis da tarde; acordar depois que escurece me deprime; fica mais longe para comprar cigarros também. Eu estou desempregado e normalmente às duas da madrugada estou iniciando – ou já escrevendo, quando estou bem – minha pesquisa.

   Num dia como hoje, somente posso mesmo começar a escrever depois da uma, uma e meia da manhã, afinal o ensaio da banda acabou meia-noite e meia e ainda tem conversa de meia hora na porta do estúdio, que graças a Deus não é muito longe, no centro da cidade, e recebo carona de um amigo; depois de chegar em casa ainda tenho normalmente que fazer comida, então você entende.

   Hoje, particularmente, não achei o ensaio bom. Minha cabeça está tão ruim que esqueci o contrabaixo no estúdio, por sorte o dono é um novo e bom amigo, um cara cuidadoso. Eu estou triste faz um tempo, e na última apresentação domingo (hoje é terça-feira), erramos muito e não agradamos, acho; pelo menos não cumprimos nosso potencial, veja, acho que acertamos mais do que erramos, mas a responsabilidade que cobramos de nós mesmos vai reforçando um grande perfeccionismo, que para uma banda que não ensaia, na minha opinião só atrapalha.

   É isso que eu acho, e contei para eles, que para uma banda que ensaia a cada dois meses o show foi bom. Não foi a mesma banda que ensaiamos hoje a tocar domingo, e quando todos os projetos estão fluindo, tenho ensaios a semana inteira, imagine.

   Bem, agora já comi algum resto da geladeira, são três horas e nove minutos da manhã enquanto escrevo isto. Alterno agora meus dedos entre o cigarro Marlboro, uma cachaça barata de três reais por meio litro que bebo pura com gelo, e meu teclado.

   Mas voltando para os meus dias em geral. Bem, eu acordo, ponho água para esquentar. Eu não tomava café antes de me casar – nunca casei propriamente, vivi amasiado dois anos, casamento moderno, “juntar os panos” – mas aprendi a passar café com minha ex-esposa e logo ela não fazia mais, mas pedia que eu fizesse, porque o meu era melhor; assim ganhei mais um vício.

   Depois de tomar café me sinto melhor. Exceto pela gastrite, que se agrava. Então encho um copo de gelo – sem comer antes, ultimamente, eu não fazia isto antes – e começo pelo primeiro copo de pinga. Depois do café já posso conversar sem grunhir ou destratar alguém, e depois de dois copos de pinga posso até cantar sem reflexos de regurgitação provocados pela gastrite; estes raramente se efetivam; a não ser que eu fume maconha junto com o raio do café, uma combinação desastrosa, mas há meses não fumo mais diariamente.

   Detesto ficar bêbado, então logo após esses copos forço-me a comer algo, mesmo que pouco, mesmo sem fome alguma. Acredite, eu posso beber cachaça pura, misturar com cerveja ou qualquer outra coisa hodiernamente, da hora em que acordo até o minuto em que vou dormir já claro no céu, sem que por uma única vez na minha vida tenha sido carregado ou perdido a consciência. Se isto é bom ou ruim a longo prazo, o futuro vai dizer.

   Bem, então estou sentado com meu café, e o que houver sobrado de meus cigarros da madrugada anterior, já liguei meu computador quando antes de pôr água para esquentar, e vou checar e-mails e comunicações no Facebook, religiosamente; pode haver coisa importante de um dia para o outro. Eu posso, por exemplo, ter recebido algum e-mail da minha editora, uma moça que só conheço pela internet ainda, parece ser muito querida, e estou enviando mais dois contos para a segunda antologia independente que ela organiza, e eu participo. Ou alguma banda pode ter marcado ensaio, e internet economiza muito crédito de telefone, para organizar tais coisas. O café esfriou nessa hora, então ou jogo fora e recompleto a caneca – não posso tomar mais do que duas ou minha gastrite não me deixará em paz pelo resto do dia – ou requento o que tiver dentro no forno de micro-ondas, dependendo da fartura ou escassez de pó de café.

   Logo sinto falta de música. Não tenho mais paciência em escolher um entre oito mil arquivos de mp3 como antes, então simplesmente abro o site Youtube, e ouço algumas das recomendações até que eu mesmo sinta falta de ouvir algo específico e digite ali mesmo.

   Desempregado, nessa hora estou de olho se minha mãe passa no corredor para lhe surrupiar alguns reais para cigarro e pinga.

   Acompanho um pouco das atualizações de amigos no Facebook, e logo enjoo da tarefa. Passo a ler artigos de política, e ultimamente tento não ler mais do que dois ou três, pois o assunto não é mais tão emocionante quanto antes, mas deprimente e obrigatório. Ou pode ser filosofia ou religião. Curioso, não tenho paciência para frivolidades quando estou sozinho, e insisto em não discutir as coisas sérias e quase imploro por conversas amenas com os amigos quando no bar. Como disse, não tenho estado bem.

   Eu há poucos meses conheci a moça que julguei, seria a mulher da minha vida. Eu estava bem, eu juro, tinha diminuído com as noitadas, as drogas, estava voltando mais cedo. Mas ela fez questão de concentrar-se mais em meus defeitos, e permita-me te contar, ter um copo de pinga com gelo – mesmo que eu nunca tenha ficado – muito – bêbado na frente dela, ou ainda menos, jamais agredido uma mulher ou perdido a paciência com qualquer um por causa da bebida – nas mãos as vinte e quatro horas do dia não causa boa impressão. Bem. Já voltamos a isso, ou talvez não.

   Meu próximo passo é abrir um arquivo de texto que mantenho no desktop, com dois textos curtos, ajoelhar-me, e recitar as duas orações que faço todos os dias sem pular um desde que a conheci, pedindo a Deus que apare as arestas, e que se ela me ama de verdade, tenha coragem de ser minha esposa. Ela julga que por ser escritor e músico, alcoólatra, e com uma grande dose de arrogância, não mereço o amor dela. Nem mesmo fala mais comigo, ainda assim rezo todos os dias, sem falta. Sou um católico devoto, mas isto é matéria para outros textos.

   Como concilio minha religião com meu estilo de vida degradado, não me perguntem, deixem que Deus me perdoe ou condene. Quando comecei meu primeiro livro, namorava ainda outra moça, que eu amava profundamente, que me abandonou com ainda menores explicações, o que me provocou o tal ‘bloqueio de escritor’ por meses. Quando conheci esta última musa inspiradora, escrevia quatro mil palavras por noite no mínimo, tive ideias para novos contos e comecei até a arriscar um romance. Agora está tudo parado novamente… Ou quase.

   Preferia não explicar porque uma única moça foi causadora – ou catalizadora – da tristeza tão grande nos últimos meses, pois seria obrigado a voltar e explicar a anterior e a anterior, e contar a vida inteira. Mas a verdade é que depois do café com cigarro, das duas doses para acalmar a gastrite, das minhas orações, de checar minhas comunicações, de ler algo instrutivo (se eu tiver a chance e a capacidade de me concentrar), eu estou ouvindo música, e logo estou chorando. Muito naturalmente, diariamente.

   A partir daí duas coisas invariavelmente acontecem: ou me forço a trabalhar, pode ser com música, ou pesquisa e escrita, ou a tristeza domina e eu espero a madrugada para tentar de novo. De madrugada não posso tocar ou gravar, então se decidir pela música posso apenas mixar arquivos já gravados, usando fones de ouvido que me esquentam as orelhas. Normalmente escrevo, leio, ou assisto filmes.

   Filmes têm sido chatos de assistir depois que meu monitor queimou e estou com um daqueles antigos emprestados, nada cabe na tela quase esférica. Estou chorando vendo comédias do Gene Wilder e Richard Pryor, e do Peter Sellers, calcule meu nível de depressão. Mas normalmente vejo algo de terror, para obter inspiração para meus contos.

   Eu sempre amei horror. Eu fugia do berço quando era bebê, ligava a televisão bem baixinho, quando via a chamada para algum filme bom de madrugada. Talvez assim começou minha insônia? Não sei. Sem nem saber ler direito, com cinco ou seis anos não podia desgrudar de uma edição barata e empoeirada do Drácula de Bram Stocker.

   Então de madrugada já andei de um lado para o outro percorrendo o corredor da casa a tarde toda, e comecei a andança de tarde, de preferência depois que minha mãe já está atendendo seus pacientes – e o olhar dela demonstra claramente perceber toda a minha conturbação e não é nada agradável – tendo todo o tipo de ideia entre as lamentações de autocomiseração, e quando algo sólido formou-se em minha mente, é como uma obrigação, sentar-se e escrever.

   É uma hora boa, porque quase não há interrupções de madrugada, e eu já digeri nesta hora todas as informações necessárias para criar um ambiente de narrativa realista, enquanto minha cabeça ferve, indo e voltando no enredo, e anoto todas as frases impactantes que possa pensar. Minha pesquisa é ‘cabeluda’; já li quatro mil anos da história da cidade de Belfast no Wikipédia para utilizar informação nenhuma em um único parágrafo de um conto.

    Cá entre nós, nada mais do que a obrigação com aquele perfeccionismo abjeto que já mencionamos em outra forma de arte acima. Gosto de dar informações, enriquecer o texto. Se se passar em Curitiba, melhor ainda, conheço muitas das coisas prosaicas desta minha cidade que me esforço para continuar amando.

   Depois escrevo como alguém que vomita.